O Custo Invisível da Persistência Inútil
No universo da gestão de produtos, a persistência é frequentemente exaltada como uma virtude. Contudo, existe uma linha tênue entre a resiliência estratégica e a teimosia autodestrutiva. Manter uma feature que não entrega valor — seja para o usuário, para o negócio ou para a estratégia — não é apenas um erro; é um dreno contínuo de recursos preciosos. O que começa como uma aposta promissora pode rapidamente se transformar em um ativo tóxico, consumindo tempo de desenvolvimento, capacidade de suporte, atenção da equipe de marketing e, o mais grave, desviando o foco de oportunidades genuínas de mercado.
A falha em reconhecer e agir sobre uma feature subperformática é, em essência, uma manifestação da falácia do custo irrecuperável. Investimos tempo, dinheiro e esperança, e a ideia de “jogar fora” esse investimento é dolorosa. No entanto, o custo de manutenção (monetário e de oportunidade) de uma feature ineficaz supera em muito o desconforto de admitir o erro. Para líderes de produto e C-Levels, a capacidade de desapegar é um superpoder estratégico.
Sinais Inegáveis de que uma Feature Fracassou
Identificar o momento de pivotar ou remover uma feature exige uma análise fria e baseada em dados, desprovida de paixões ou egos. Os sinais raramente são sutis para quem está disposto a vê-los.
Métricas em Declínio ou Inexistentes
- Baixa Adoção/Engajamento: Usuários mal tocam na feature ou a abandonam rapidamente. Ferramentas de análise de produto (como Amplitude ou Mixpanel) revelam taxas de uso pífias.
- Impacto Negativo em OKRs: A feature não contribui para os Objetivos e Resultados-Chave definidos, ou pior, impacta negativamente outras métricas importantes, como retenção ou NPS.
- Testes A/B Inconclusivos/Negativos: Experimentos mostram que a feature não melhora o comportamento do usuário ou, em alguns casos, até o piora.
- Crescimento de Débito Técnico: A feature se torna um peso para o time de engenharia, dificultando novas implementações ou gerando bugs frequentes.
Feedback Negativo Consistente (ou Silêncio Ensurdecedor)
- Reclamações Recorrentes: O suporte ao cliente está sobrecarregado com tickets relacionados a problemas ou confusão com a feature.
- Ausência de Feedback Positivo: Ninguém elogia a feature, nem mesmo os usuários mais engajados. O silêncio pode ser tão ensurdecedor quanto as reclamações.
- Baixa Satisfação do Usuário: Pesquisas de satisfação (CSAT, NPS) indicam que a feature não atende às expectativas ou até as frustra.
Complexidade e Débito Técnico Crescente
- Custo de Manutenção Elevado: O esforço para manter, atualizar e corrigir bugs da feature supera seu valor percebido.
- Bloqueio de Inovação: A feature se torna um gargalo, impedindo o desenvolvimento de outras iniciativas mais promissoras devido à sua complexidade ou dependências.
O Processo Decisório: Como Pivotar ou Remover
Uma vez que os sinais são claros, a ação deve ser metódica e decisiva.
- Revisão de Dados e Hipóteses: Reúna todos os dados quantitativos e qualitativos. Reavalie as hipóteses iniciais que justificaram a feature.
- Análise de Custo-Benefício: Calcule o custo de manutenção vs. o valor (ou a falta dele) que a feature entrega. Considere o custo de oportunidade de manter a feature.
- Engajamento de Stakeholders: Comunique os dados e a proposta de remoção ou pivotagem para todos os envolvidos (engenharia, marketing, vendas, liderança). Prepare-se para defender a decisão com fatos, não com opiniões.
- Plano de Desativação ou Pivotagem:
Se remover:
- Comunique os usuários impactados com antecedência, explicando os motivos e, se possível, oferecendo alternativas.
- Monitore o impacto da remoção em outras métricas.
- Remova o código de forma limpa, reduzindo o débito técnico.
Se pivotar (transformar a feature em algo novo):
- Defina novas hipóteses e métricas de sucesso.
- Construa e teste rapidamente um MVP da nova abordagem.
- Comunique a mudança como uma evolução, não como uma falha.
- Documentação das Lições Aprendidas: Crie um post-mortem da feature. O que aprendemos? Como podemos evitar erros semelhantes no futuro?
Visão Sênior: O Desafio da Emoção e Política
A decisão de remover uma feature raramente é puramente técnica. Ela esbarra no ego do Product Manager que a idealizou, na pressão política de um C-Level que a defendeu ou na resistência de um time de engenharia que investiu meses nela. O desafio real não é apenas identificar a falha, mas ter a coragem de comunicar a verdade inconveniente e liderar a equipe através do desconforto. Um líder sênior entende que o custo de preservar uma feature por orgulho ou política é sempre maior do que o custo de admitir um erro. A saúde estratégica do produto e da empresa deve sempre prevalecer sobre o apego individual, garantindo que recursos escassos sejam direcionados para onde realmente geram impacto.
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