O crescimento a qualquer custo é uma falácia cara
Quantos projetos, quantos milhões, nós jogamos fora perseguindo uma métrica vazia? A obsessão por escalar a todo vapor, sem freio, sem propósito, é um vestígio de uma era que não existe mais. Investidores e C-Levels que ainda flertam com essa máxima estão, na verdade, construindo castelos de areia em terreno movediço. Chega de amadorismo.
A verdade é que o crescimento a qualquer custo se tornou o inimigo silencioso da sustentabilidade. Ele drena capital, desmotiva equipes e, pior, entrega um produto sem alma, sem valor real para o cliente. Nós, como gestores de produto, sabemos que a linha entre a ambição e a irresponsabilidade é tênue. E, francamente, muitos a cruzaram.
A ilusão da escala e o custo do amadorismo
A mentalidade de ‘fábrica de software’ nos iludiu por tempo demais. Acreditamos que mais releases significavam mais valor, que mais usuários, não importando como, eram sinônimo de sucesso. Um erro crasso. Nós vemos empresas queimarem fortunas em aquisição, sem sequer validar se o cliente realmente quer ou usa o que foi entregue. Isso não é crescimento, é autofagia.
Nossos OKRs devem refletir resultados, não meras tarefas. O foco é o outcome, o impacto mensurável, não a corrida desenfreada por features. Sem clareza nos Objetivos e Resultados-Chave, qualquer expansão é um tiro no escuro. E o mercado não perdoa mais tiros no escuro.
Cenário de Trincheira
Uma startup de SaaS, seduzida pela captação de Série A, investe pesado em campanhas de marketing digital para dobrar sua base de usuários em seis meses. A equipe de produto, pressionada, lança funcionalidades incompletas, cheias de bugs, para ‘atender a demanda’. O resultado? Um pico de aquisição, seguido por um churn que explode, um LTV que despenca e uma base de usuários insatisfeita que migra para a concorrência. O capital, que deveria impulsionar o valor, foi incinerado na fogueira da vaidade.
O PO Ninja e a gestão de valor real
O Product Owner não é um tirador de pedidos. Essa visão simplista é o câncer de muitos projetos. O PO é um estrategista, um articulador que domina o refinamento técnico e a gestão de stakeholders. Sua coragem em dizer ‘não’ a demandas sem alinhamento estratégico é a bússola que impede o barco de afundar. O Product Backlog não é uma lista de desejos, é um instrumento de execução da estratégia.
No dia a dia, a transparência e a inspeção do Scrum nos forçam a questionar: este item do backlog realmente agrega valor? Ele move nossos OKRs? A adaptação constante é vital. Sem essa disciplina, o crescimento vira bagunça.
Cenário de Trincheira
Um PO sênior, em uma grande empresa de varejo, recebe uma demanda urgente do diretor comercial para desenvolver uma nova funcionalidade que replica um recurso do concorrente. Sem validação de mercado, sem análise de impacto no ROI. O PO, consciente da sobrecarga do time e do baixo valor percebido, desafia a demanda. Apresenta dados de pesquisa de usuário e um estudo de custo/benefício que demonstra um retorno marginal. A resistência inicial do diretor é grande, mas a argumentação técnica e estratégica do PO, embasada em dados, prevalece. A funcionalidade é adiada, e o time foca em otimizar o checkout, um problema real que impactava a conversão.
Métricas de vaidade não pagam as contas
A maioria das empresas mede o Cycle Time errado e é por isso que os prazos nunca são batidos. Contar cliques ou downloads sem entender a retenção, o engajamento e, principalmente, a monetização, é um autoengano. Precisamos de métricas que realmente importam: ROI, Churn Rate, LTV, CAC. Estes são os números que os investidores olham, que definem a saúde financeira e a sustentabilidade de um produto.
A análise do fluxo de qualidade, desde a iniciação até o encerramento, nos permite identificar gargalos e otimizar o processo. É uma visão holística, não um olhar fragmentado para números isolados. Software de gestão de produtos, aqui, se torna um aliado estratégico, fornecendo os dados para decisões embasadas.
Cenário de Trincheira
Uma plataforma de educação online celebra o impressionante número de leads gerados por suas campanhas. O time de marketing exibe gráficos de crescimento exponencial. Contudo, a equipe de vendas e sucesso do cliente vê o churn aumentar a cada mês. O problema? A qualidade dos leads era baixa, o produto não entregava o valor prometido para essa nova base, e o CAC (Custo de Aquisição de Clientes) estava insustentável. A métrica de vaidade do lead ofuscou a métrica de valor real do LTV, quase levando a empresa à ruína.
Construindo um futuro sustentável, não um castelo de areia
O fim do crescimento a qualquer custo não é o fim do crescimento. É o início de uma era de inteligência, de propósito, de sustentabilidade empresarial. Significa construir valor incrementando, validando, adaptando. Significa ter coragem para parar, inspecionar e recalibrar a rota, mesmo quando a pressão externa é imensa. Nós aprendemos, muitas vezes da forma mais dura, que o sucesso duradouro vem da solidez, não da velocidade.
Que sua empresa construa valor real, com propósito e responsabilidade, não importa o quão contraintuitivo isso possa parecer em um primeiro momento. É a única forma de sobreviver e prosperar neste novo cenário. E você, está pronto para essa mudança de mentalidade?
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