O Custo Oculto dos 1:1s Disfuncionais
No universo da gestão de produtos e projetos, a eficiência é a moeda corrente. Contudo, poucas rotinas drenam tanto tempo e geram tão pouco retorno quanto os One-on-Ones (1:1s) mal executados. O que deveria ser um pilar de desenvolvimento e alinhamento estratégico, frequentemente degenera em um status report mascarado ou, pior, em um bate-papo sem propósito. Para um profissional sênior, C-Level ou investidor, o custo não se resume aos 30 ou 60 minutos perdidos; ele se materializa em talentos desengajados, problemas não escalados, oportunidades de inovação perdidas e, em última instância, na performance operacional comprometida.
A falsa sensação de cumprimento de meta – “fiz meu 1:1” – esconde uma ineficiência sistêmica que afeta a retenção de talentos, a velocidade de resolução de impedimentos e a capacidade da liderança de obter insights genuínos da linha de frente. Ignorar essa lacuna é aceitar uma margem de perda em um ambiente que exige otimização constante.
Redefinindo o Propósito: 1:1s como Ativo Estratégico
Um 1:1 de alto valor não é um favor do gestor, mas um investimento estratégico. Ele é o canal primário para entender as aspirações, desafios e ideias de um colaborador, transformando feedback em forward-looking actions. Quando bem estruturado, ele se torna uma ferramenta potente para:
- Engajamento e Retenção: Demonstra que a organização valoriza o indivíduo, não apenas sua produção.
- Desenvolvimento de Carreira: Identifica lacunas de habilidade e traça planos de crescimento alinhados aos objetivos da empresa.
- Resolução Proativa de Problemas: Permite que gestores removam impedimentos antes que escalem, utilizando dados qualitativos do dia a dia.
- Alinhamento Estratégico: Garante que as contribuições individuais se conectem diretamente com os objetivos de negócio e OKRs.
Ferramentas de gestão de performance e feedback contínuo, como Lattice ou Culture Amp, podem potencializar a coleta e o acompanhamento de temas discutidos nos 1:1s, transformando conversas em dados acionáveis e rastreáveis ao longo do tempo.
Pilares de um 1:1 de Alto Valor
- Agenda Colaborativa: Ambos os participantes contribuem para a pauta, focando em tópicos que vão além do status report.
- Foco no Desenvolvimento: Discussões sobre carreira, novas habilidades, desafios e oportunidades de crescimento são prioritárias.
- Feedback Bidirecional Genuíno: O gestor também busca feedback sobre sua performance e sobre a empresa.
- Remoção de Impedimentos Ativa: O gestor atua como facilitador, buscando entender e solucionar obstáculos que afetam a produtividade do liderado.
- Cultura de Confiança e Transparência: Cria um ambiente seguro para discutir temas sensíveis e ideias inovadoras.
O Processo para 1:1s Impactantes
A transformação de 1:1s em um ativo estratégico exige disciplina e um processo claro:
- Preparação Prévia (15 min): Ambos os participantes devem revisar notas da sessão anterior, atualizar status de itens de ação e adicionar novos tópicos à agenda. Utilizar um template padrão em plataformas como Fellow.app ou até mesmo um documento compartilhado em Confluence ou Google Docs garante foco.
- Ambiente e Tempo Dedicado (30-60 min): Minimize interrupções. O tempo do 1:1 deve ser sagrado, sem e-mails ou Slack. A qualidade da atenção é mais importante que a quantidade de tempo.
- Escuta Ativa e Perguntas Poderosas: Em vez de ditar, questione. Perguntas como “Qual tem sido o maior desafio esta semana e como posso ajudar?” ou “O que você aprendeu recentemente que pode aplicar aqui?” abrem espaço para insights.
- Registro e Ações Claros: Documente os pontos-chave, decisões e, crucialmente, as ações com seus respectivos responsáveis e prazos. Ferramentas de gestão de projetos como Jira ou Asana podem ser integradas para acompanhar essas ações.
- Follow-up e Revisão: Na próxima sessão, comece revisando os itens de ação da anterior. Isso constrói responsabilidade e demonstra que a conversa teve impacto real.
Visão Sênior: A Armadilha da Eficiência Distorcida
Em um mercado obcecado pela métrica e pela otimização de tempo, é fácil cair na armadilha de tentar tornar os 1:1s “eficientes” no sentido mais raso do termo: rápidos e focados apenas em entregas. No entanto, o verdadeiro valor de um 1:1 reside justamente na sua “ineficiência” aparente – na pausa para a reflexão, na escuta profunda, na construção de confiança e na exploração de temas que não cabem em um stand-up meeting. O ROI de um 1:1 bem feito não é imediato; ele se manifesta na redução do turnover, na capacidade de inovar e na resiliência da equipe diante de desafios complexos. Priorizar a profundidade sobre a velocidade é um ato de liderança estratégica, não de complacência.
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